sábado, 1 de junho de 2019

Aos felizes não cabem poemas

A tristeza deve servir às palavras
Assim como a solidão lhes serve.
Pessoas felizes não escrevem poemas
Desse remédio elas não sentem o gosto,
Porque suas bocas estão cheias,
Fartas de regozijo.
E essa alegria que lhes escorre dos lábios,
As torna leigas aos poemas
E aí me cabe o consolo,
De que a mim eles fazem sentido.

Quando mergulho nas palavras de Fernando Pessoa, ele é
Ao mesmo tempo,
mar que me afoga e bote que me salva.
E ao colocar-me diante do espelho com seus versos
Eu me sinto menos menos sozinha
E só nessas horas me aproximo um pouco das pessoas felizes.
Meus pedaços quebrados,
Com os dele conversam bem
E é tão bom que alguém tenha colocado em palavras -
Há mais de meio século atrás -
As coisas que meu coração sente.

As pessoas felizes tem outras pessoas felizes.
Eu, pessoa sozinha, tenho o meu poeta Pessoa.
Então, uma gota daquele regozijo que escorre farto da boca dos felizes,
cai sobre meus lábios também.
Mesmo não sendo tão doce,
Me alimenta e eu posso ser grata às palavras,
Porque minha tristeza à elas serve e elas servem a mim.
E isso, os felizes nunca entenderão

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Baseado em sonhos reais

19 de out, 3:32 am

Eu acabei de acordar de um pesadelo e estava com medo de me virar para pegar o celular. Era tanto medo que parecia que o mau estava ali, ao meu lado. Geralmente, quando isso acontece, é porque sonhei com espíritos ou demônios, mas dessa vez, meu medo era de pessoas, não mais nem menos do que seres humanos. Parecia que estavam aqui, rondando minha cama. No meu sonho eu e uns conhecidos lutávamos numa guerra civil, queríamos impedir um homem, com ideias absolutamente anti-dignidade-humana de governar. Eu, junto com eles, fugia de outros conhecidos que queriam nos matar. Nesse cenário, eu vi amigos morrendo e matando e vi que chegamos perto, bem perto de barrar nosso algoz, mas ele parecia imbatível, pois seu grupo de suporte estava disposto a tudo. No fim, ao vê-lo vivo depois de ataques que seriam fatais, os meus já cansados, se voltaram contra mim alegando "questão de sobrevivência". Corri, fugi e sozinha ataquei também. Senti as pedras que me jogaram, os cacos de vidro, os golpes com barra de ferro e no fim, senti meu corpo pesado. Caí. Machucada e coberta de sangue. Meu antigo grupo, agora aliado com os rivais do qual lutávamos contra, me e cercou e disseram que por respeito deixariam minha irmã me matar. Naquela altura, eu já estava morta mesmo. Ela vem detrás das pessoas, chorando me abraça deitando também ao chão. Ela chorava pois sabia que precisava me matar. Perguntaram minhas últimas palavras, perguntaram se aquele era o fim, eu disse que não - lembrei do filme jogos vorazes - e ali mesmo, no chão, disse para lembrarmos quem era nosso verdadeiro inimigo. Enquanto estava morrendo, acordei. Dessa vez foi só um sonho.


sábado, 18 de agosto de 2018

Os grandes pequenos passos


Certas coisas na minha vida,
eu pensei que fossem pra sempre,
Ou ao menos, esperei que durassem mais.
Outras terminaram do jeito que começaram
Rápido.
E eu previ o fim.

Agora,
Você,
Você fazia parte do meu futuro.

De algum jeito eu sentia isso,
Esperava que fosse verdade certo acordo que fizemos,
Mas hoje, ele perdeu sentido pra mim.

Eu estou me tornando alguém que talvez eu já devesse ser há mais tempo
Mas não é simples, é doloroso mudar.
Meu processo é lento, cheio de vacilo e recuos,
Mas me sinto grande nos pequenos passos.

Quero ser honesta comigo,
Não aceitar menos do que mereço
Não esperar tanta coisa dos outros
Quero ser apenas igual, segura, horizontal.

Eu estou crescendo,
E ao andar em frente
Sempre deixamos coisas para trás.
Você é a parte difícil porque lhe via no caminho a frente
Não alguém pra deixar,
Alguém para encontrar.
Não é sua culpa minhas expectativas,
Mas, sabe, eu sempre estive tão disponível
Porque não me incomodava estar assim,
Agora, porém, não parece ter sentido colocar você num lugar tão mais alto
Do que o lugar que tem pra mim
(se é que há um lugar).
Como disse,
Quero ser horizontal
Sem hierarquia de valores
Pensei que eu fosse algo que não sou,
Reitero, contudo, não é sua culpa.
Nós vivemos nossa experiência de um jeito diferente,
Funcionou até aqui,
Não funciona mais.
É duro me despedir,
Ainda mais quando você se quer sabe disso,
Mas estou indo embora.
Achei que pudéssemos seguir do mesmo jeito,
só que isso implica em eu estar sempre na mesma posição:
Disponível
e eu estou afim de me ocupar
De mim, especialmente.

Mais um adeus de gratidão,
Mais um degrau na minha história
Que as pernas tremeram para superar
Pisar
Subir
Andar
E aos poucos,
Esquecer.
Saudades desde já.


segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Carta aberta

Eu quase acreditei na culpa de ter feito você sofrer. Quase acreditei ser um caos, uma bagunça, ser insensível. Procurei em mim todos os defeitos de que você me acusava e até encontrei alguns, porém, sempre procurei deixá-los claro a você. Não planejei nada do que aconteceu, eu realmente tinha dúvidas sobre o que sentia. Estar contigo me trazia calma, não te ver, não conversarmos, era muito difícil pra mim, por isso pensei que devia dar-nos uma chance, duas, três, seis... Tarde, bem tarde, percebi que de você eu só queria amizade. Você pode dizer que eu deveria ter me dado conta disso antes, eu também acho, mas não foi assim que aconteceu e não me culpo por isso, precisei de tempo, porém, em todo esse nosso caminho tentei te deixar a par da situação, ser sincera tanto quanto podia, não tinha como lhe dizer o que eu ainda não sabia. Não me culpe por isso. Você me acusou de ter lhe usado para "preencher um vazio", hoje vejo que essa é a tua história, não a minha. Uma pessoa atrás da outra, um amor atrás do outro, exatamente do mesmo jeito. Talvez a ideia de ficar um tempo sozinha seja difícil demais pra você, não sei. Sei que eu não fui ninguém especial para você, como dizia que eu era. Esse seu sentimento parece sempre o mesmo, só muda as peças de lugar. Eu fui uma peça que substituiu a anterior, quem vem depois de mim cumpre a mesma função. Entender isso me deixou livre de toda culpa possível, eu fui o melhor que pude, você talvez tenha sido também. Com gratidão posso encerrar essa história, eu aprendi muito! Especialmente a sempre analisar, em todas as relações, o que é meu e o que é do outro. Obrigada por me ajudar a entender isso.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

A S C O


Eu sonhei
Que da minha boca
Que do céu da minha boca
Saiu uma coisa podre
Parecia uma bola de gude
Parecia um dente inflamado
Estava tão podre
Tão nojento
Que quando me dei conta que fazia parte de mim me assustei por não ter sentido antes
Era um osso
Era uma esfera
Era preta no interior
Branca ao redor
Apodrecendo de dentro pra fora
O fora escondia o dentro
Podre.
Eu sinto asco
É como se quisesse arrancá-la repetidas vezes
Era uma bola podre que fazia parte de mim
Que estava dentro de mim
E agora saiu
Por um buraco pequenininho
Dum espaço tal qual um dente normal ocuparia
Estava podre e doeu
Senti arrancar a raíz
Quando fui removê-lo senti que estava muito profundo e não sairia sem me deixar lesões
Outros dentes foram afetados e eu os vi soltos,
Quebrados
Irremediavelmente danificados
Me apavorei
Chorava nervosa
Pensei que precisava ligar pra alguém me ajudar a solucionar aquilo
Aquilo que parecia não ter remédio.
Eu tirei um dente podre de dentro de mim
“Estava na minha cabeça”, pensei
“Estava na minha cabeça e agora conseguiu sair”
Depois,
Um molde retangular de uma orelha
Eu lembro de ter visto a versão daquele molde em algum lugar
Não sei se em mim
Ou em outra pessoa
Só sei que eu já conhecia.
Pensei
“Como isso tudo esteve aqui por tanto tempo? Como eu não percebi? Como estão conseguindo sair por esse buraquinho?”
Era uma bola podre, dura, esmaltada
Branca por fora
Podre por dentro
O podre se sobressaindo.
E eu arranquei.
E arranco todos os dias de novo porque não consegui tirar da cabeça
Nem a imagem nem aquela sensação
O que há de tão podre em mim?

Apodrecer por esquecimento


Eu tinha uma bicicleta
Que nem notei
Quando não tinha mais.
Quando me disseram: “doei”
Eu a quis de novo.
Ela voltou,
esqueci novamente
A história se repetiu
E outra vez eu não notei a ausência dela.
Agora,
Tem outra
Que não é minha, mas quase
Eu olho pra ela todos os dias
Pneu murcho,
Já desisto.
Acho que mesmo se estivessem cheios eu desistiria também.
Várias manhãs eu acordei disposta,
Eu estava ali
E a bicicleta também,
Não sei porque eu desisti dela.

Eu tinha uma cachorrinha,
E igualmente, esquecia-me dela.
Dias sem água,
Outros dias sem comida,
Pelo menos de minha parte ela não ganhava nada.
Na maioria das vezes não era por mal,
Eu só esquecia
Outras vezes eu a via
E ignorava.
Esperava que alguém fizesse algo por ela,
Sempre faziam.
Ela morreu.
Nos últimos dias de vida dela
Eu a vi sofrer muito, demais
Meu coração doeu
Doeu por ela e por mim.
Ela, naquele estado
Era um retrato da minha vida
Morrendo por esquecimento
Sendo comida viva,
Ela estava apodrecendo por descuido
Igualzinha a mim.

No final,
Se quer me senti culpada
Eu estava esperando
que tudo acabasse logo,
Eu sempre espero.
E vai acabar.
Como ela,
Podre por esquecimento.
Ela morreu pela indiferença
E cada dia eu morro também.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Ontem

Só ontem
Escrevi e apaguei a mesma mensagem
Várias vezes
Estava te pedindo desculpa pelas minhas atitudes nos últimos dias
Eu queria me livrar
Da falta.
Queria acreditar que estou melhor agora
Que tudo já foi superado assim,
rápido
Mas não foi.
Falei tanta coisa
Coisas ruins de mais
Mas não consegui me convencer,
Não funcionou.
Eu sigo sentindo tua falta.
Tenho pensado mais em você do que achei que pensaria
Às vezes só quero te contar as coisas que estou passando
As coisas que estou pensando
E ouvir o mesmo de você.
Só um abraço
Pra eu sentir tua paz de novo
A paz que eu sentia contigo
O mundo desaparecia
E você me acolhia na ausência dele.
Meus dias sem você são desamparo
Mas sei que não posso pedir nada.
Eu gosto mesmo de você
Mas há tempos sei que só isso não é o suficiente
Deveria ser mais fácil partir
Mas não é.

  Das certezas breves, uma: Não me desculpo por quem eu sou. Desconfio. Até canso de mim às vezes, Mas, não me desculpo. Cada dia m...