quarta-feira, 2 de maio de 2018

A S C O


Eu sonhei
Que da minha boca
Que do céu da minha boca
Saiu uma coisa podre
Parecia uma bola de gude
Parecia um dente inflamado
Estava tão podre
Tão nojento
Que quando me dei conta que fazia parte de mim me assustei por não ter sentido antes
Era um osso
Era uma esfera
Era preta no interior
Branca ao redor
Apodrecendo de dentro pra fora
O fora escondia o dentro
Podre.
Eu sinto asco
É como se quisesse arrancá-la repetidas vezes
Era uma bola podre que fazia parte de mim
Que estava dentro de mim
E agora saiu
Por um buraco pequenininho
Dum espaço tal qual um dente normal ocuparia
Estava podre e doeu
Senti arrancar a raíz
Quando fui removê-lo senti que estava muito profundo e não sairia sem me deixar lesões
Outros dentes foram afetados e eu os vi soltos,
Quebrados
Irremediavelmente danificados
Me apavorei
Chorava nervosa
Pensei que precisava ligar pra alguém me ajudar a solucionar aquilo
Aquilo que parecia não ter remédio.
Eu tirei um dente podre de dentro de mim
“Estava na minha cabeça”, pensei
“Estava na minha cabeça e agora conseguiu sair”
Depois,
Um molde retangular de uma orelha
Eu lembro de ter visto a versão daquele molde em algum lugar
Não sei se em mim
Ou em outra pessoa
Só sei que eu já conhecia.
Pensei
“Como isso tudo esteve aqui por tanto tempo? Como eu não percebi? Como estão conseguindo sair por esse buraquinho?”
Era uma bola podre, dura, esmaltada
Branca por fora
Podre por dentro
O podre se sobressaindo.
E eu arranquei.
E arranco todos os dias de novo porque não consegui tirar da cabeça
Nem a imagem nem aquela sensação
O que há de tão podre em mim?

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