quarta-feira, 2 de maio de 2018

Apodrecer por esquecimento


Eu tinha uma bicicleta
Que nem notei
Quando não tinha mais.
Quando me disseram: “doei”
Eu a quis de novo.
Ela voltou,
esqueci novamente
A história se repetiu
E outra vez eu não notei a ausência dela.
Agora,
Tem outra
Que não é minha, mas quase
Eu olho pra ela todos os dias
Pneu murcho,
Já desisto.
Acho que mesmo se estivessem cheios eu desistiria também.
Várias manhãs eu acordei disposta,
Eu estava ali
E a bicicleta também,
Não sei porque eu desisti dela.

Eu tinha uma cachorrinha,
E igualmente, esquecia-me dela.
Dias sem água,
Outros dias sem comida,
Pelo menos de minha parte ela não ganhava nada.
Na maioria das vezes não era por mal,
Eu só esquecia
Outras vezes eu a via
E ignorava.
Esperava que alguém fizesse algo por ela,
Sempre faziam.
Ela morreu.
Nos últimos dias de vida dela
Eu a vi sofrer muito, demais
Meu coração doeu
Doeu por ela e por mim.
Ela, naquele estado
Era um retrato da minha vida
Morrendo por esquecimento
Sendo comida viva,
Ela estava apodrecendo por descuido
Igualzinha a mim.

No final,
Se quer me senti culpada
Eu estava esperando
que tudo acabasse logo,
Eu sempre espero.
E vai acabar.
Como ela,
Podre por esquecimento.
Ela morreu pela indiferença
E cada dia eu morro também.

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