Eu sonhei
Que da minha
boca
Que do céu da
minha boca
Saiu uma
coisa podre
Parecia uma
bola de gude
Parecia um
dente inflamado
Estava tão
podre
Tão nojento
Que quando me
dei conta que fazia parte de mim me assustei por não ter sentido antes
Era um osso
Era uma
esfera
Era preta no
interior
Branca ao
redor
Apodrecendo de
dentro pra fora
O fora
escondia o dentro
Podre.
Eu sinto asco
É como se
quisesse arrancá-la repetidas vezes
Era uma bola
podre que fazia parte de mim
Que estava
dentro de mim
E agora saiu
Por um buraco
pequenininho
Dum espaço tal
qual um dente normal ocuparia
Estava podre
e doeu
Senti arrancar
a raíz
Quando fui
removê-lo senti que estava muito profundo e não sairia sem me deixar lesões
Outros dentes
foram afetados e eu os vi soltos,
Quebrados
Irremediavelmente
danificados
Me apavorei
Chorava nervosa
Pensei que
precisava ligar pra alguém me ajudar a solucionar aquilo
Aquilo que
parecia não ter remédio.
Eu tirei um
dente podre de dentro de mim
“Estava na
minha cabeça”, pensei
“Estava na
minha cabeça e agora conseguiu sair”
Depois,
Um molde
retangular de uma orelha
Eu lembro de
ter visto a versão daquele molde em algum lugar
Não sei se em mim
Ou em
outra pessoa
Só sei que eu já
conhecia.
Pensei
“Como isso
tudo esteve aqui por tanto tempo? Como eu não percebi? Como estão conseguindo
sair por esse buraquinho?”
Era uma bola
podre, dura, esmaltada
Branca por
fora
Podre por
dentro
O podre se
sobressaindo.
E eu
arranquei.
E arranco
todos os dias de novo porque não consegui tirar da cabeça
Nem a imagem
nem aquela sensação
O que há de
tão podre em mim?