Chega um tempo sem que você percebe que o espaço não te cabe mais. Sua casa, seus amigos, sua família, começam a existir sem você. Chega um tempo que dividir o mesmo espaço começa a ser apertado, e o não dividir te faz incompreendido. Suas ideias e desejos não são mais atendidos com a mesma precisão de antigamente, e nem os seus valores valem para alguma coisa. Você tenta ser notado, ser brilhante, mas é tudo em vão. Hoje seus esforços – por mais grandiosos que sejam – não passam de obrigação. Passa o tempo e você começa a mendigar um pouco de audiência, uma gota que seja de “senti-tua-falta” em qualquer telefonema que seja. Você nota que vem dedicando seu tempo e sua força da vital juventude para coisas que nem consegue entender o sentido. Oito horas no trabalho, servindo sabe-se lá quem, vinte e cinco minutos é o que tens de almoço – descontando o tempo de chegar em casa e pegar o ônibus – depois, à noite, mais trinta e três minutos para tomar banho e... jantar? Quem sabe, sem comida sobrevive-se até as vinte e três horas.
Chegar em casa, ganhar no máximo um boa noite dito com má vontade. Largar a bolsa, tomar um café, ver tevê até a meia noite e vinte, escovar os dentes. Dormir, sonhar loucuras... Total viagem! Quem sabe a única parte do dia em que se encontra livre de veras.
Vai enchendo o currículo de experiências e cursos, e secando as páginas do diário. Gostava de escrever, mas hoje não tem mais motivos. Perderam-se os amigos, os fatos épicos, os amores platônicos, e os desejos secretos. Perderam-se o brilho dos olhos, os sonhos intensos, os objetivos traçados e os amores encontrados. Longes pairam as lembranças, quase escassos os momentos em que sorriu de verdade. Tu percebes que estás morta em vida, e que te acostumaste com isso.
A cada dia cria seu mundo, e o pior é que se faz contente com isso, quanto tudo começou estava animada, mas têm coisas que persistem em vê-la triste, deprimida, down total sabe? Acredito que seja ela quem persista nesses sentimentos.
Voltando dois ou três anos se encontra, e se vê diferente. Tão diferente que tem medo de rever os amigos, medo da repreensão, medo de não ser mais como eles a conheceram um dia, medo de não ser mais o seu “eu verdadeiro” hoje perdido, ou nunca encontrado.
Vê-se só. Mesmo com tantos convites, mesmo com tantos corações, está só. Nem tudo ela conta, nem tudo ela quer, mas sabe como ninguém negar-se para a vida. Mas, o que é a vida para ti na verdade? Tuas concepções não se aplicam a ela. Ela é o maior dos mistérios que alguma mente consiga pensar, a incógnita da esfinge que um dia espera se auto-desvendar.

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