Percebe que nas brigas
alguém tem que ceder, e quem faz isso geralmente é o mais forte, aquele que
sabe que não vai cair se descer alguns degraus de sua arrogância. Mas na briga
onde os dois são fracos e tem medo de demonstrar o quanto estão caídos, ou pior,
quando querem demonstrar qual mais está no chão, as coisas ficam difíceis. Estouram
para lados que tentavam segurar as coisas, destruindo os pilares e pouco a
pouco a casa toda desaba. Descobre-se então que tais pilares eram cordas efêmeras
que seguravam uma construção que já havia desmoronado há muito tempo. Essa é a
minha casa, ou pelo menos, o que restou dela. Dizem que aqui dentro sou um
vírus, que age silenciosamente e gosta de ver as coisas se destruindo. É
mentira, eu só não me culpo por coisas que não sinto ser minha responsabilidade.
Mas sim, eu sei que como todos aqui faço parte da doença, só não apresento os sintomas.
Não pra eles pelo menos, que gostam de mostrar como estão piores do que eu. Tudo
bem, meu silêncio sempre me fez companhia e de certa forma me protege. Como forma
de protesto tento provar o quanto estou bem e finjo que não há nada de errado
aqui dentro. O ruim disso tudo é que os convenço disso, o que me torna alvo
fácil para se lançarem os dardos do desgosto, amargura, infelicidade e culpa,
afinal, como pode apenas uma dentro dessa selva não estar queimando com a nossa
febre?
Sei que vou morrer sem lembranças, mas acho que isso nem é culpa minha ou de quem eu queira culpar. Estou presa, trancada, isolada do mundo. Mundo de aparências, que julgam as pessoas pela sua casca, mas uma coisa eu sei, tudo o que tem forma um dia se vai, quebra, se rompe e tudo o que eu poderia carregar eu nunca pude colher: Boas lembranças. Minha vida está a cada segundo mais breve, mais efêmera, cada dia estou mais perto do fim, esperando um grande dia, um bom momento para começar. Sinto pena de mim, sei que vou morrer, não sei se logo ou tarde, mas no fim das contas isso não importa. Não se tem vida na minha atual vida, se é que se pode entender isso. Eu vejo pessoas partindo e as vezes tenho vontade de acompanhá-las, quiçá para um lugar melhor ou nem que seja para o fim. Para fundo, para o nada. Pelo menos meus olhos estariam fechados e eu não veria tudo o que eu estou perdendo estando aqui. Queria encontrar a paz, a felicidade, a minha liberdade de poder viver da minha forma, mas estão todos cegos, todos iludidos por um futuro que não existe. Relacionamentos são apenas um comércio, onde você me oferece o seu dinheiro e eu abro minhas pernas, eu te dou minha companhia... É assim que querem que eu seja, fantoche do mundo moderno. Que trabalhe para pagar um bom estudo e estude para ter um bom trabalho. Mas sabe, essa não é a minha concepção de vida e se eu puder fazer uma escolha, eu escolho partir.




