
Quando
você sente saudade de alguém não é exatamente o outro que te faz falta, mas sim,
tudo o que você atribuiu a ele, construiu e viveu com ele. Você sente falta de
como ri com ele, de como se sente quando abraça ou beija, da forma como
caminham juntos, das bobagens e brincadeiras que só vocês sabem... Sente falta
da companhia e do prazer que estar junto oferece. Na medida em que o tempo
passa e você conhece mais a pessoa que está do seu lado, algumas coisas vão se
revelando e a maneira como você conduz cada nova descoberta pode determinar se
vocês podem ou não ficar juntos, ou mostra ao menos até onde ambos estão
dispostos a ir por isso. No começo, cada um se esforça para mostrar apenas o
seu melhor lado, às vezes ficam sem jeito, cuidam com as palavras, procuram não
magoar a outra pessoa e até mentem ou escondem coisas para não “fazer sofrer”,
ou talvez, para não perdê-la (como se pudéssemos realmente possuir alguém). Enfim,
o ponto que pretendo chegar é que, uma hora ou outra o lado secreto, obscuro,
ruim de cada um vai aparecer. Esse lado por vezes se manifesta sutilmente, num
olhar, no tom de voz e até mesmo na forma de respirar, a gente percebe, mas
conscientemente ignora por medo de desmanchar a figura que idealizou, por medo
de que aquele objeto de desejo pode não ser exatamente quem você pensa que é,
até que um dia esse lado secreto explode, escancara, arrebenta as barreiras que
você ou quem está contigo criou para proteger tanto você, quanto ele mesmo,
pois os dois temem perder um ao outro. É nessa hora que você precisa ver até
onde se dispõe a ir por e com a pessoa que gosta. Os que souberam conduzir
essas “explosões” – creio eu – amaram ainda mais o seu alguém. Tiveram
paciência, coragem e amor, o mais sincero amor para dar a mão também ao Lobo
que habita em cada um de nós. E o que estou falando aqui não é de um amor
comercial, esse não venceria tal provação, pois é covarde e precisa dizer que
existe, precisa dizer que ama para poder ser visto e no meio de tantas palavras,
não sobra espaço para o sentimento real, visceral, sincero. Vejo hoje muito “eu
te amo”, está por todos os lados! Mas o amor de fato eu não tenho encontrado. Não
sei onde foi que nos perdemos, nós, enquanto espécie, enquanto seres que sentem.
Quando foi que nos tornamos tão hipócritas e egoístas a ponto de comercializar
nossas emoções e não aceitar que não somos e que não há ninguém perfeito? A ponto
de querer condenar o outro por não corresponder as nossas expectativas? Sei que
esse texto não termina do jeito que começou, mas não há linhas de começo, meio
e fim quando falamos sobre nossos sentimentos, há apenas o desejo de tentar
exorcizar os pensamentos, de “jogá-los para fora”, de tentar organizar o caos chamado
subjetividade que nos torna tantas pessoas vivendo em uma só. Creio eu que seja
o encontro dessas tantas pessoas, com as tantas pessoas do outro que torna
alguns sujeitos mais especiais do que outros, quem sabe nessa legião alheia não
esteja também uma parte nossa habitando no outro, assim como, uma parte alheia
habitando em nós.
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