segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Legião



Quando você sente saudade de alguém não é exatamente o outro que te faz falta, mas sim, tudo o que você atribuiu a ele, construiu e viveu com ele. Você sente falta de como ri com ele, de como se sente quando abraça ou beija, da forma como caminham juntos, das bobagens e brincadeiras que só vocês sabem... Sente falta da companhia e do prazer que estar junto oferece. Na medida em que o tempo passa e você conhece mais a pessoa que está do seu lado, algumas coisas vão se revelando e a maneira como você conduz cada nova descoberta pode determinar se vocês podem ou não ficar juntos, ou mostra ao menos até onde ambos estão dispostos a ir por isso. No começo, cada um se esforça para mostrar apenas o seu melhor lado, às vezes ficam sem jeito, cuidam com as palavras, procuram não magoar a outra pessoa e até mentem ou escondem coisas para não “fazer sofrer”, ou talvez, para não perdê-la (como se pudéssemos realmente possuir alguém). Enfim, o ponto que pretendo chegar é que, uma hora ou outra o lado secreto, obscuro, ruim de cada um vai aparecer. Esse lado por vezes se manifesta sutilmente, num olhar, no tom de voz e até mesmo na forma de respirar, a gente percebe, mas conscientemente ignora por medo de desmanchar a figura que idealizou, por medo de que aquele objeto de desejo pode não ser exatamente quem você pensa que é, até que um dia esse lado secreto explode, escancara, arrebenta as barreiras que você ou quem está contigo criou para proteger tanto você, quanto ele mesmo, pois os dois temem perder um ao outro. É nessa hora que você precisa ver até onde se dispõe a ir por e com a pessoa que gosta. Os que souberam conduzir essas “explosões” – creio eu – amaram ainda mais o seu alguém. Tiveram paciência, coragem e amor, o mais sincero amor para dar a mão também ao Lobo que habita em cada um de nós. E o que estou falando aqui não é de um amor comercial, esse não venceria tal provação, pois é covarde e precisa dizer que existe, precisa dizer que ama para poder ser visto e no meio de tantas palavras, não sobra espaço para o sentimento real, visceral, sincero. Vejo hoje muito “eu te amo”, está por todos os lados! Mas o amor de fato eu não tenho encontrado. Não sei onde foi que nos perdemos, nós, enquanto espécie, enquanto seres que sentem. Quando foi que nos tornamos tão hipócritas e egoístas a ponto de comercializar nossas emoções e não aceitar que não somos e que não há ninguém perfeito? A ponto de querer condenar o outro por não corresponder as nossas expectativas? Sei que esse texto não termina do jeito que começou, mas não há linhas de começo, meio e fim quando falamos sobre nossos sentimentos, há apenas o desejo de tentar exorcizar os pensamentos, de “jogá-los para fora”, de tentar organizar o caos chamado subjetividade que nos torna tantas pessoas vivendo em uma só. Creio eu que seja o encontro dessas tantas pessoas, com as tantas pessoas do outro que torna alguns sujeitos mais especiais do que outros, quem sabe nessa legião alheia não esteja também uma parte nossa habitando no outro, assim como, uma parte alheia habitando em nós.

  Das certezas breves, uma: Não me desculpo por quem eu sou. Desconfio. Até canso de mim às vezes, Mas, não me desculpo. Cada dia m...